Autor: PEDRO PORCIÚNCULA
O texto não expressa a opinião dos editores.
NÃO ATIRE NO MORIBUNDO
Era uma saleta quadrada, do tamanho de uma sala de espera
de pequenos consultórios médico. Estava escura e não tinha janelas. Uma mesa
velha logo abaixo de uma lâmpada incandescente de 40 watts, amarela, duas
cadeiras de madeira na frente e, atrás da mesa, uma cadeira de couro rasgado e
preto, aparecendo às espumas amarelas do estofamento, reclinável e giratória e
com rodinhas. A sala tinha um pé direito alto o suficiente para um homem de um
metro e oitenta centímetros ficar em pé e se sentir claustrofóbico. Havia um
telefone, desses de girar o disco para se telefonar, em cima da mesa, uma folha
de ofício, uma caneta bic que, pelo seu aspecto, deve ter sido achada no chão
em algum lugar. A carga estava pela metade. No canto, atrás da mesa, tinha um
arquivo desses acinzentados e com três gavetas.
Dois homens entram na sala. Um negro e um branco. O Negro
entrou primeiro, acendeu a luz, suspirou e foi em direção a cadeira de couro.
Carregava consigo uma pasta de couro preta mofada e desbotada. Largou-a em cima
da mesa, sentou-se, abriu uma das gavetas da mesa, retirou dois copos e uma
garrafa de uísque vagabundo, que estava pela metade, serviu uma dose nos copos,
reclinou-se e botou os pés em cima da mesa, sujando de terra a folha de ofício.
Estava de traje alto esporte todo preto. O branco se sentou numa das cadeiras
de madeira e tentou ficar confortável e não conseguiu. Ele era moreno, cabelos
pelos ombros e lisos, usava uma barba cerrada, porém curta. Pegou o copo e
começou a bebericar. O Negro entornara o copo de uma só vez e servia uma nova
dose.
- Queria um cigarro agora mesmo. – Disse Dave, o branco.
- Seria suicídio nessa sala sem janelas. – Disse Jones, o
negro.
- As coisas não andam bem.
- Faz horas... – disse enquanto batia com a unha do médio
no copo.
Ficaram em silêncio por um minuto. Jones serviu mais uma
dose para cada um e depois disse:
- A Williams não amadurece. Desde que aqueles dois bunda
moles saíram da banda, eles não lançam nada novo, e já se vão aí quanto tempo? Três
anos?
- Não sei, não tenho os acompanhado.
- Romancezinho adolescente só em livros, por favor, e
olhe lá!.
- Pois é... Mas tem esperança...
- É... Osbourne reuniu a corja, Cornell e companhia
também. Só falta o Vedder fazer outro “dez” e podemos respirar aliviados.
- É o mesmo que pedir para o polaco ressuscitar e fazer “esquece”
novamente.
- Faz falta...
- E como...
- Tocava com ele, né?
Dave não disse nada, apenas assentiu e terminou a sua
dose. Jones foi servir novamente, mas ele gesticulou com a mão, fazendo o afro
entender que não queria mais.
- Vi nas notícias que aquela vaca não tem mais os
direitos da imagem dele.
- Finalmente. Consegui convencer a garotinha. Agora ela
está com a gente.
- Boa... Você fez um bom trabalho com o último álbum,
Dave. Era o que estávamos precisando.
- O teu último também não é de se jogar fora. - deu uma
risada – Esse estilo “rockstar” de pegador também faz falta. É uma atitude que
não se vê nessa gurizada.
- Agora eles só querem saber de casamento. Com dezesseis
anos. Quem que quer casar aos dezesseis, meu Santo Cristo?
- É o que dá dar uma guitarra para garotinhos mimados e
conformados. Agora está assim, como se fosse um DVD daquela mulher...
Apresentadora de programas infantis no Brasil...
- Sei. Eu não acredito que as coisas chegaram aonde
chegaram. O que foi que fizemos de errado?
- Acho que começou lá com o Joe... Largaram o surf/punk e
pintaram os olhinhos.
- Ah... Acho que deve ter sido isso mesmo. Só precisou de
um mau exemplo pra ferrar de vez com o esquema todo.
- Acho que confundiram as coisas. Não fizeram mais
músicas depressivas sobre questões adultas, mas sim sobre questões
adolescentes. Agora temos um bando de barbados com crise que se tem dos 14 aos
17. É patético. O polaco não era assim. Não mesmo...
- Ah, o
Loeffler vem fazendo algo parecido. Estão começando a estourar.
- Verdade... O que me
revoltou foi o Kroeger...
- Nem me fala...
Aquele violãozinho e com efeitinho de voz... Vomitei.
- Faz falta o
Polaco...
- É... Aqui, beba
mais um pouco.
- Tudo bem. – Jones serviu mais uma dose e ficaram ali,
sentados, esperando o tempo passar. Tentando entender quando que as coisas
chegaram nesse ponto e como que aquelas porcarias que andavam tocando por aí
tinham tomado os seus lugares. Era difícil de dizer. Talvez tenha sido a
juventude que mudou, talvez não. Ou talvez o esquema tenha morrido só que os
médicos ainda não deram a notícia ainda, ou, simplesmente, ninguém queria
admitir.